Iris Pacheco (Psat/Fiocruz Brasília)
Entre os dias 5 e 9 de outubro, residentes da Residência Multiprofissional em Saúde da Família com Ênfase na Saúde da População do Campo participaram do Módulo VII que discutiu o Ciclo de Vida II – Saúde da Mulher, na Escola de Governo Fiocruz-Brasília.
A programação promoveu debates sobre saúde das mulheres do campo, assistência durante o parto e o puerpério. Além da realização de um Seminário sobre Transtorno do Espectro Autista (TEA), com foco na qualificação das práticas de cuidado e no reconhecimento das necessidades dos diferentes públicos e territórios.
As desigualdades territoriais e as dificuldades de acesso às políticas públicas de saúde estão entre os desafios enfrentados pelas mulheres que vivem no campo, em aldeias e em comunidades quilombolas. O tema foi abordado por Luiza Garcia, pesquisadora do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat) da Fiocruz Brasília.
Segundo Garcia, “as mulheres do campo são atravessadas por diversas iniquidades. O território e, muitas vezes, a dificuldade de acesso às políticas públicas em saúde, faz com que essas mulheres sejam atravessadas por problemas que as mulheres que vivem na zona urbana convivem.”
Para a pesquisadora, a formação dos profissionais que atuam nesses territórios deve contemplar o conhecimento sobre direitos, políticas públicas e saúde das mulheres. Na prática, esses trabalhadores podem exercer um papel fundamental na aproximação entre as políticas de saúde e as comunidades.
“Quem está atendendo na ponta muitas vezes será a ponte entre a política e o território. Para mim, não existe como falar de saúde da mulher sem falar em políticas públicas, resistência e luta. Ser mulher é um ato político”, afirma.
Parto e puerpério: cuidado que vai além do nascimento
Quando o assunto foi a assistência durante a gestação, o parto e o puerpério estiveram em pauta. A enfermeira, especialista em Enfermagem Obstétrica e Ginecologia e em Direitos Humanos, Participação Social e Promoção da Saúde das Mulheres, Juliana Ventura, destacou a importância de fortalecer a rede de atenção à saúde materna e infantil, especialmente nos territórios com dificuldades de acesso aos serviços.
Entre os principais obstáculos citados por Ventura estão os vazios assistenciais, a distância das maternidades de referência, a falta de transporte regular e as condições das estradas. Esses fatores podem dificultar o acompanhamento pré-natal e comprometer a identificação precoce de riscos para a mulher e o bebê.
“A vinculação é fundamental para garantir segurança e continuidade do cuidado, pois permite que a mulher conheça antecipadamente o local onde terá seu bebê, compreenda os fluxos de atendimento e estabeleça uma relação de confiança com o serviço. Isso contribui para reduzir a ansiedade, o medo e a insegurança relacionados ao momento do nascimento”, salientou.
A enfermeira também ressaltou que a assistência não deve terminar com o nascimento. O puerpério exige acompanhamento contínuo, com atenção à recuperação física, à saúde mental, à amamentação e à identificação de possíveis complicações maternas e neonatais. “É fundamental fortalecer a Rede de Atenção à Saúde Materna e Infantil, assegurando que os serviços estejam articulados desde o pré-natal até o puerpério”, ressaltou.
Para fortalecer esse cuidado, é necessário articular a Atenção Primária à Saúde, os serviços especializados e as maternidades, além de investir em visitas domiciliares, busca ativa de gestantes, transporte sanitário e qualificação das equipes.
A atenção também deve respeitar as especificidades culturais, os saberes tradicionais e as formas de organização das comunidades rurais, indígenas e quilombolas. “Mais do que garantir que a mulher consiga chegar a uma maternidade, precisamos assegurar que ela seja acolhida, respeitada e acompanhada em todas as etapas, com segurança, dignidade e continuidade do cuidado”, reforçou Juliana.
Seminário aborda comunicação e cuidado no TEA
A programação também incluiu um seminário sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), com a participação de Gabriela Guedes Cordeiro Ramos. A atividade abordou conceitos fundamentais sobre o transtorno, características clínicas, diagnóstico tardio e possibilidades de intervenção multiprofissional.
Durante a atividade aconteceu uma roda de conversa com os residentes, baseada em leituras, situações e casos relacionados ao TEA, além de um momento para esclarecimento de dúvidas e troca de experiências.
Entre os aspectos discutidos, a comunicação acessível e a previsibilidade das rotinas foram destacadas como elementos importantes para o acolhimento e o acompanhamento de pessoas autistas. “A comunicação direta, com frases concisas e informações organizadas, também pode facilitar a compreensão. Recursos escritos e apoios visuais são estratégias que podem ajudar, respeitando as necessidades e preferências individuais”, orientou Gabriela.
Outro ponto importante é garantir espaço para que a pessoa autista expresse dúvidas, dificuldades e necessidades. A abertura ao diálogo permite que os profissionais identifiquem barreiras e ajustem suas práticas ao longo do acompanhamento.
Ao reunir essas temáticas, a formação reforça a importância de uma atuação multiprofissional atenta às desigualdades sociais, às particularidades dos territórios e às necessidades de cada pessoa. A qualificação do cuidado passa tanto pelo conhecimento técnico quanto pela construção de práticas baseadas na escuta, no acolhimento, na garantia de direitos e no respeito à diversidade.
Fotos: Roberta Quintino e arquivo Psat