Oportunidade de um futuro acadêmico movimenta encontro com adolescentes

Fernando Pinto 27 de junho de 2023


Nos dias 22 e 23 de junho, início do inverno, na região administrativa de Taguatinga no Distrito Federal (DF), foi realizado o evento “Cartografia dos Sonhos: Territórios de Formação pensando o futuro e o trabalho”. O encontro ficou marcado pelos olhares curiosos de mais de 50 adolescentes e jovens de diferentes unidades de acolhimento da assistência social do DF, que atravessaram os grandes corredores do Centro Universitário de Brasília (CEUB), campus Taguatinga. O fator curiosidade foi despertado porque muitos experimentaram pela primeira vez a sensação de estar no ambiente universitário. Era possível notar nos olhares encantados a esperança de um futuro no mundo acadêmico.

 

A atividade faz parte do projeto de pesquisa “Territórios da Construção de Si: processos de desinstitucionalização de jovens e adolescentes pela maioridade”, desenvolvido, desde 2021, pelo Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad) da Fiocruz Brasília e pela Promotoria de Justiça da Defesa da Infância e da Juventude do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

 

Direito, área da saúde, segurança pública, medicina veterinária, serviço social, professor, chefe de cozinha, digital influencer, cantor, dançarino, maquiador e empresário foram algumas das profissões que despertaram interesse nos jovens que visitaram o campus universitário. Os alunos foram recepcionados pela pesquisadora e docente do curso de Direito Luciana Musse. A professora é uma das integrantes do Projeto Interdisciplinar em Saúde Mental (PRISME) do CEUB, a iniciativa voltada para os cuidados da saúde mental, onde as turmas de Psicologia, Enfermagem, Educação Física, Medicina e Direito fornecem atendimento voluntário e gratuito.

 
Para os adolescentes, Luciana preparou uma apresentação sobre a importância do ensino superior e carreiras profissionais. Na ocasião, os jovens conheceram mais sobre a rotina da universidade, além das curiosidades sobre as profissões no campo do direito, segurança pública e saúde. Para a docente, existem vários caminhos em que esses adolescentes podem ser despertados para a importância do ensino superior e uma carreira profissional de sucesso no futuro. “Precisamos levar o conhecimento que se produz e aprende na sala de aula para outros espaços que não seja só o da academia. É preciso criar oportunidades para o desenvolvimento de cidadãos capazes de transformar a sociedade”, disse.

 
“Eu vou mudar meu destino e a história dos meus pais”. Foi com essas palavras que a estudante de direito do CEUB e integrante do PRISME, começou sua fala com os adolescentes. Thaís Alves de Souza, que cursa sua segunda graduação, contou um pouco da sua história de superação, oriunda de uma família de oito irmãos de uma região periférica de Brasília, Thaís se orgulha em dizer que hoje é servidora concursada do Corpo de Bombeiros Militar do DF. Filha de pedreiro e doméstica, hoje a terceira-sargenta dos bombeiros revelou que seu objetivo no futuro é se tornar uma magistrada. “Sonhe, acredite que é possível e nunca desista, corra atrás que as coisas acontecem conforme nossos sonhos”, frisou.  

 
Os adolescentes estavam acompanhados também pelos oficineiros Fernando Rocha e Layó Pereira, artistas que realizam atividades com os jovens nas Unidades de Acolhimento. Responsáveis pelas Oficinas Expressivas, que no projeto “Territórios da Construção de Si”, apresentam os fundamentos básicos da construção rítmica dos versos e das possibilidades sonoras e iconográficas de compartilhamento de ideias, sentimentos, visões de mundo e emoções.

 

Para a museóloga, educadora e rapper Layó, atividades assim trazem esperança para que esses adolescentes que vivem cercados de desafios da vida periférica possam acreditar em um futuro promissor e cheio de realizações. “Encontros assim fortalecem os vínculos afetivos deles, a gente vê o progresso na evolução da comunicação de cada abrigado. Isso, só é possível devido a espaços de escutas e da razão de ser como esse aqui, proporcionado pelo projeto Territórios da Construção de Si”, ponderou.  


Ao final do encontro, no palco montado na praça de alimentação do Centro Universitário, os adolescentes apresentaram suas poesias e cantaram músicas que retratam seus anseios no futuro acadêmico e sonhos que chegam das margens periféricas do Distrito Federal. Amor, vivências pessoais, saúde, política, desigualdades sociais, direitos humanos, drogas, sexualidade e questões raciais são algumas das temáticas emergentes expressadas nas apresentações.

 
“O sonho é vivo.
Eu quero me casar!
É bom, é ilusão?
É bonito, inteligente é só querer.
Quem vive realiza.
Quem dorme sonha.”

 

Dizia um dos versos da poesia que foi recitada pelos adolescentes. O texto é fruto das oficinas de escuta realizadas durante os encontros nas casas de acolhimento com os oficineiros. Os textos e canções retratam a diversidade de emoções e percepções disparadas de como cada adolescente se sente provocado a se expressar.  A atividade contou ainda com a participação das pesquisadoras do projeto, Fernanda Severo, Márcia Caldas e Lorena Padilha, que acompanham as atividades com os jovens abrigados. 

 

“Territórios da Construção de Si”

 

“Territórios da Construção de Si” é uma pesquisa-ação que pretende desenvolver ações inovadoras para a construção da autonomia, a ampliação das trocas sociais e a garantia de acesso a direitos fundamentais, como saúde, moradia, educação, trabalho e renda, para os adolescentes e jovens acolhidos. Projetos de vida, saúde mental, vivências nos territórios periféricos, cultura, lazer e ciência cidadã são alguns dos temas disparadores do conjunto de ações de campo da pesquisa, que pretende estimular, refletir e amplificar a voz dos adolescentes nas políticas públicas de saúde e direitos humanos.


Para a historiadora Fernanda Severo, do Nusmad da Fiocruz Brasília e integrante da coordenação científica da pesquisa-ação, atividades assim possibilitam a coleta de dados sobre as percepções, reflexões e expectativas dos adolescentes acerca do presente e do futuro e auxilia na construção de cada abrigado. Ela destacou ainda que encontros assim ajudam na análise mais profunda e além de onde pulsam os sonhos, os direitos e o futuro de cada adolescente.

 

Concorda com Fernanda, a assessora técnica do MPDFT Márcia Caldas. Segundo ela, essa construção tem que ser realizada em coletivo, para auxiliar na construção do futuro desses jovens que estão próximos a deixarem as unidades de acolhimento. “Eles não podem pagar pelas falhas do Estado, por mais difícil que seja, eles estão construindo seus espaços nos campos da saúde, educação e cultura”, enfatizou. 
 

Entre os dias 2 e 5 de julho, os adolescentes participarão da 17ª Conferência Nacional de Saúde, junto com o grupo de mediadores da pesquisa. Na ocasião, eles apresentarão o Sarau Territórios de Si, com hip hop, poesia, exposição e outras intervenções culturais, e produzirão uma reportagem audiovisual com os delegados da Conferência a partir do questionamento: Se amanhã vai ser outro dia, hoje o que é? A proposta é ampliar a visibilidade das expressões adolescentes, potencializar seu pertencimento social e provocar nos delegados reflexões sobre o lugar desses jovens na cena política da Conferência.