Consciência do que aconteceu para nunca mais se repetir

Fiocruz Brasília 23 de novembro de 2022


Fernando Pinto e Nathállia Gameiro

 

“Não podemos esquecer o que aconteceu na pandemia!”. Essa afirmação foi consenso entre os convidados da mesa redonda Os legados da pandemia: Lições aprendidas na preparação para o enfrentamento de epidemias e pandemias e legados institucionais, realizada na manhã desta quarta-feira (23/11) como parte da programação do 13º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, que ocorre até 24 de novembro, no Centro de Convenções de Salvador, Bahia.

 

“Como explicar que o maior programa de imunizações do mundo deixou de salvar 47 mil idosos que poderiam ser salvos pela vacinação da Covid-19?”. O questionamento foi feito pelo médico sanitarista, coordenador e pesquisador do Núcleo de Epidemiologia e Vigilância em Saúde (NEVS) da Fiocruz em Brasília, Cláudio Maierovitch. “Carregamos um rastro de destruição, sofrimento e morte como nunca vimos antes no país”, afirmou.

 

O sanitarista também abordou o conhecimento sobre a doença e o vírus, o desenvolvimento de tecnologias de novas vacinas, o impacto social das (des)igualdades em uma emergência em saúde e o papel da cultura e da comunicação. A falta de uma política e coordenação nacional para divulgar e incentivar o uso de medidas corretas contra a Covid-19 também foi lembrado pelo pesquisador. Segundo ele, a falta dessas medidas foi um dos fatores que disseminaram hábitos sem eficácia e inflamaram nas redes sociais os movimentos antivacinas.

 

Maierovitch apontou, ainda, a falta de investimento na atenção básica de saúde, que deveria ser prioridade para o Sistema Único de Saúde (SUS). “Se o Brasil contava com o SUS, por que as pessoas ficaram sem diagnóstico, sem vaga, sem tratamento, sem oxigênio, sem kit de intubação e sem chance?”, questionou, indicando que o Brasil não garantiu as medidas de prevenção, controle da doença e divulgação de informações baseadas nas evidências científicas. “Em uma crise sanitária, é preciso constituir um Comitê de Operações de Emergência e Saúde, com acompanhamento das necessidades e respostas de cada estado, de cada município”, destacou ao lembrar a forma como o Brasil estava acostumado a trabalhar em outros momentos em que o país passou por crises sanitárias.

 

De acordo com o palestrante, deve-se carregar a esperança de que as futuras decisões frente às crises sanitárias sejam diferentes para fazer frente ao legado do negacionismo cultivado nesta pandemia. Por fim, ele sintetizou que o maior legado que carregamos desse período é o da consciência do que aconteceu, reforçando a tarefa do resgate das informações de todo o período da pandemia. “Não podemos carregar o legado da impunidade, temos que ter consciência do que aconteceu, para que nunca mais se repita”, concluiu. 

 

O debate contou também com a participação das pesquisadoras Maria Rita Donalisio, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Deisy Ventura, da Universidade de São Paulo (USP); e Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

 

A pandemia e seus legados

Plataformas e recursos nas respostas à Covid-19 foram tema de uma das sessões científicas realizadas na manhã desta quarta-feira (23/11) no Abrascão 2022. A pesquisadora da Fiocruz Renata Bernardes apresentou a experiência da Fundação no uso de recursos educacionais abertos (REA) na pandemia do novo coronavírus, na busca de responder às necessidades de ampliação do acesso, do compartilhamento de conhecimento e da troca de experiências sobre um tema em constantes debates entre os especialistas.

 

A Fiocruz desenvolveu diversos cursos, contribuindo com a formação de mais de 500 mil profissionais de saúde. Para Renata, o REA reforça a educação como um direito de todos e a importância da rápida capilarização de conteúdos instrucionais, na ampliação de conteúdos abertos, mas revela também desafios. “A Fiocruz busca superar as injustiças sociais, trabalhando com alternativas para que todos tenham acesso e condições tecnológicas para as aulas remotas”, disse.

 

Ingrid D’Avilla, pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), apresentou estratégia construída pela unidade para rastreio e monitoramento de casos suspeitos e confirmados de Covid-19 no retorno às atividades presenciais, para a mitigação de riscos à transmissão local do vírus.

 

Já um protótipo desenvolvido pela Fiocruz Ceará, o CoVive Social, buscou conhecer a rotina e as demandas do serviço social no contexto da pandemia em um hospital de Fortaleza (CE), de modo a contribuir para a definição das principais funcionalidades da solução, propiciando informação atualizada sobre o paciente para seus familiares, comunicação humanizada, acesso a documentos e direitos. O trabalho foi apresentado por Ivana Barreto, pesquisadora da Fiocruz Ceará.

 

Comunicação para a promoção da saúde

Logo no início da pandemia, conteúdos sobre a Covid-19 foram produzidos por instituições e movimentos sociais, mas não foram direcionados às pessoas mais velhas no campo, às suas especificidades, necessidades e interesses. A crítica foi feita por Rosely Arantes, mestranda em Saúde Pública da Fiocruz Pernambuco, que apresentou um estudo segundo o qual cerca de 79% dos entrevistados tiveram dificuldades em compreender as informações sobre a doença, mas mudaram de atitude na adoção de medidas protetivas ao vírus. A televisão foi o principal meio de informação desse público, seguido pelo rádio e profissionais de saúde, sindicato dos trabalhadores rurais e a igreja.

“Não houve direcionamento nem intencionalidade, e há pouco conhecimento sobre as especificidades e limitações impostas pelo avanço da idade e pela condição da velhice no campo, e também sobre como essas pessoas se comunicam. Existe uma invisibilização da classe trabalhadora velha”, afirmou Rosely, destacando que a forma do trabalho condiciona o modo como a pessoa vai envelhecer. Para a palestrante, é necessário uma atenção especial às dificuldades de visão e audição, e de uso de tecnologias, além da baixa escolaridade.

A pesquisadora criticou os termos utilizados para se referir ao envelhecimento, como melhor idade e idoso, que classificou como negação da velhice. Rosely afirmou que pouco sabemos sobre velhice e “não somos educados para isso, já que o nosso modelo de sociedade exalta o corpo jovem, o corpo que produz, como se quem é velho não agregasse valor”.

Para suprir a necessidade de maior diálogo e oferta de serviços, cuidado, vigilância e promoção da saúde para esse grupo, e garantir os direitos à comunicação e à saúde pública, pesquisadores elaboraram o Guia de comunicação com pessoas velhas do campo para iniciantes. O material, voltado a comunicadores, foi elaborado com os idosos que trabalham na área rural de Pernambuco, desde a escolha das fontes e tamanho das letras, até o uso das cores, tipos de imagem e linguagem. O Guia está disponível no site da Fiocruz Pernambuco e pode ser acessado aqui. “A pandemia mostrou que precisamos repensar nossas escolhas para uma mudança na perspectiva de um mundo respeitoso e que reconheça outros seres. A escuta e o olhar para a velhice é um dos desafios”, destacou. O trabalho tem a participação dos pesquisadores do Programa de Promoção da Saúde Ambiente e Trabalho da Fiocruz Brasília André Fenner, Virgínia Corrêa e Gislei Knierim, além de Ana Paula Dias, mestranda em Políticas Públicas em Saúde da unidade.

 

Já a representante do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), Lilian Venâncio, apresentou estudo que mostra que os símbolos nas embalagens de dispositivos médicos ainda são desconhecidos por muitos profissionais de saúde. Seu grupo de trabalho analisou a rotina de laboratórios, buscando reduzir os danos aos pacientes. Para a pesquisadora, a ausência de informações, que incluem os símbolos de rastreabilidade e segurança, podem acarretar a utilização equivocada do produto e trazer danos à saúde da população. Como resultado, a equipe desenvolveu um catálogo com símbolos considerados imprescindíveis à diminuição de riscos em vigilância sanitária e seus significados, com foco na segurança do paciente, para informar de forma clara e precisa o que é necessário ao uso ou à rastreabilidade.

 

A sessão científica foi mediada pela pesquisadora Aline Cavaca, do Jacarandá – Núcleo de Educação e Humanidades em Saúde da Fiocruz Brasília.

 

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