Abrascão 2022: confira como foi o segundo dia

Fiocruz Brasília 22 de novembro de 2022


Por Nathállia Gameiro e Fernando Pinto

 

A Fiocruz Brasília marcou presença no segundo dia do 13º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva em debates acerca do direito à saúde e resistência das mulheres em tempos de crise; do cuidado e vigilância popular da saúde em território vulnerável; dos transtornos mentais em tempos de Covid-19; dos saberes tradicionais e populares; das práticas integrativas e complementares em saúde (PICS); e dos 10 anos da Política Nacional de Educação Popular em Saúde.

“Muitas mulheres morreram na fogueira na época da Inquisição porque detinham conhecimentos de cura. Os povos originários foram mortos, escravizados e até hoje seus saberes e práticas são menosprezados ou colocados como conhecimentos inferiores”. A crítica foi feita pelo bolsista da Fiocruz Brasília e ex-coordenador de PICS no Ministério da Saúde, Daniel Amado, durante a mesa redonda sobre os Saberes Tradicionais e Populares e as PICS, realizada na manhã desta terça-feira (22/11).

A institucionalização das PICS no Brasil foi apresentada pelo pesquisador. Ele contou que, em 1890, ministrar ou prescrever substâncias da natureza era crime contra a saúde pública. Os curandeiros eram perseguidos e presos pelo Estado. Após um breve panorama histórico, ele destacou os avanços do Sistema Único de Saúde (SUS), com a criação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde e 29 práticas incluídas entre 2006 e 2018. Estas estão presentes em 17.335 serviços de saúde – na atenção primária, elas estão em 90% dos estabelecimentos, distribuídos em cerca de 4.300 municípios e em todas as capitais. “É uma construção social, por isso é preciso participar das conferências para ampliar a política no SUS e mudar a lógica de cuidado. Sem construção coletiva a gente não chega lá. O SUS é nosso!”, completou.

O respeito aos saberes populares foi reforçado por todos os participantes ao ressaltarem que os cientistas não devem chegar aos territórios de forma colonizante, assim como não devem afirmar que os saberes populares e as práticas integrativas são as mesmas, nem hierarquizar ou classificar uma melhor que a outra.

“Quando eu apago o outro, eu apago parte da minha história. É preciso ampliar a perspectiva de mundo”, afirmou a pesquisadora da Fiocruz Pernambuco Islândia Carvalho, sublinhando a importância de sair do papel de detentor da verdade absoluta e empoderar as comunidades, em um processo de abertura para o aprendizado. “Devemos ocupar espaços e não apenas escrever para nossos pares com artigos científicos”, completou.

O indígena Ubiraci Pataxo também criticou o modelo colonial ainda vigente na saúde, que adoece os trabalhadores. “São pessoas doentes cuidando de pessoas adoecidas. Se vocês, profissionais de saúde, quiserem nos cuidar, precisam nos ouvir e vir com a gente. Empatia para mim é me colocar no meu lugar e ser escuta para o outro”, destacou. Ele explicou que, em sua comunidade, o acolhimento ocorre sem a tentativa de mudar o outro, ofertando sem exigir nada em troca e recebendo sem se sentir em dívida. Segundo ele, se queremos uma política e uma saúde diferentes, a mudança precisa começar por nossas próprias atitudes.

“Nós também somos colonizados e colonizadores. É necessário um exercício interno de se tornar um sujeito do processo mais emancipado e menos colonizado, é isso que vai fazer a mudança”, completou o professor Nelson Filice de Barros, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

 

“Sem saúde eu não trabalho, sem saúde eu não luto”

Aline Cardoso, mestranda do programa de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB) e egressa da pós-graduação da Escola de Governo Fiocruz-Brasília, apresentou os resultados do estudo “Marcha das Margaridas: Direito à saúde em tempos de crise”. O trabalho teve como objetivos identificar como o direito à saúde e a defesa do SUS foram abordados nos documentos da Marcha das Margaridas em 2019, e como o tema foi debatido pelas mulheres durante o processo de construção e realização da Marcha, desde o território até Brasília. O trabalho foi realizado por meio de pesquisa qualitativa com análise documental e entrevistas semiestruturadas.

 

O estudo, que contou com a orientação da pesquisadora da Fiocruz Brasília Maria do Socorro de Souza, traz como principais resultados uma maior atenção com a saúde mental e a violência contra as mulheres; a necessidade de diálogo com os poderes legislativo, executivo, municipal e estadual; a questão do desmonte do programa Mais Médicos; e a importância da formação de mais conselheiros de saúde, entre outros temas. “A luta dessas mulheres é contínua, elas nunca param de marchar em busca dos seus direitos”, concluiu Aline.

 

Na mesma sessão, outros pesquisadores da Fundação apresentaram trabalhos sobre saúde e lutas sociais dos povos originários, quilombolas e população negra. Mayara Ferreira, doutoranda em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia, destacou os principais resultados de uma pesquisa sobre a Rede de Atenção Psicossocial para os povos indígenas. A pesquisadora mostrou que, nos últimos anos, houve muitos avanços sobre o tema, com a criação de novos conceitos e documentos (cartilhas e políticas específicas). Segundo Mayara, no entanto, o principal documento que estabelece diretrizes de atendimento segue com uma visão parcial e frágil, que pode dificultar a efetivação de práticas de promoção de saúde e atenção psicossocial junto aos povos indígenas.

 

A mortalidade na infância entre quilombolas, indígenas, negros não quilombolas e brancos no Brasil foi o assunto da apresentação de Poliana Magalhães, pesquisadora do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs) da Fiocruz Bahia, que comparou as condições sociodemográficas, as taxas de mortalidade e as principais causas desses óbitos em um grupo de 100 milhões de brasileiros. A pesquisa indicou que as causas ligadas à pobreza foram mais frequentes entre quilombolas e indígenas do que entre brancos.

 

Vigilância popular e cuidado em saúde

Atenção primária, cuidado e vigilância popular da saúde em território vulnerável de Fortaleza/CE foi tema de um estudo apresentado pela Fiocruz Brasília, na tarde desta terça-feira (22/11). A pesquisa mostrou a necessidade de se pensar ações sistêmicas e integradas entre os serviços de saúde e a população articulada com o SUS e a academia. Para os pesquisadores, o enfoque participativo como estratégia para a melhoria da qualidade de vida da população sob uma perspectiva crítica e emancipatória foi um dos resultados mais potentes do trabalho. A experiência de intervenção no distrito sanitário especial indígena do Rio Negro e a redução da malária foi outro estudo da Fundação apresentando na mesma sessão por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz).

 

Covid-19 e o impacto na saúde mental 

Depressão, ansiedade e estresse estão entre as consequências da Covid-19 na saúde mental de profissionais de saúde. Os dados, apresentados durante sessão científica do Abrascão, foram obtidos a partir de estudo realizado pelas unidades da Fiocruz no Mato Grosso do Sul e em Brasília com médicos, profissionais de enfermagem e de odontologia, farmacêuticos e fisioterapeutas do MS e do DF.

 

Para Débora Dupas, pesquisadora em saúde pública da Fiocruz Mato Grosso do Sul e uma das coordenadoras do estudo, os efeitos da Covid-19 na saúde mental afetaram diretamente a força de trabalho em saúde e podem gerar impacto nos cuidados de saúde da população. “As consequências futuras são pouco conhecidas e devem permanecer como um dos principais desafios dos serviços de saúde”, alertou.

 

10 anos da Política Nacional de Educação Popular em Saúde

Diálogo, amorosidade, problematização, construção compartilhada do conhecimento, emancipação e compromisso com a construção do projeto democrático e popular foram princípios lembrados na mesa que debateu os 10 anos da Política Nacional de Educação Popular em Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (PNEP/SUS). Esses princípios orientam a Política e reafirmam seu compromisso com a universalidade, a equidade, a integralidade e a efetiva participação popular no SUS. O pesquisador da Fiocruz Brasília Osvaldo Bonetti participou do debate e lembrou que a PNEP/SUS foi um marco histórico que valorizou o diálogo entre a diversidade de saberes.

 

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