Fórum Ciência e Sociedade inicia etapa de debates entre especialistas e estudantes

Fiocruz Brasília 7 de novembro de 2018


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Nathállia Gameiro


Política Nacional de Resíduos Sólidos, crise hídrica no DF e as arboviroses são temas de mesas redondas do evento que está sendo realizado no Instituto Federal de Ceilândia


O aumento da população nas cidades gera um aumento nos resíduos sólidos urbanos e o descarte inadequado desse lixo, que traz consequências como a degradação do meio ambiente e a saúde da população. Nesse contexto, surgiu, em 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), lei que propõe a redução dos resíduos gerados e busca incentivar a reciclagem e reaproveitamento. A política foi ponto de debate ontem, 6 de novembro, no Instituto Federal de Ceilândia. 


A atividade iniciou a etapa de debates do Fórum Ciência e Sociedade, em que participam estudantes de quatro escolas da região administrativa. Este ano o evento tem como tema “A questão das arboviroses em Ceilândia e no DF”. O encontro prossegue até quinta-feira (8).


O Brasil produz 61 milhões de toneladas de lixo por ano. Cada brasileiro produz, em média, 1kg de resíduos sólidos por dia e apenas 3% de todo o lixo produzido no Brasil é reciclado. Esses dados foram apresentados pela professora do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB Izabel Zaneti. Ela contou a experiência com a redução de uso de copos plásticos, de papel e capacitação dos funcionários dos campi da universidade, que tem uma população de cerca de 52 mil pessoas. Em 2010 eram consumidos 740 resmas de papel e em 2018 o número foi reduzido para 500. No restaurante universitário eram consumidos 6 mil copos por refeição e o número foi reduzido a zero depois de alguns meses de conscientização. 


Outros dados mostram que 41,6% do lixo no Brasil tem destino inadequado e 11% dos resíduos ficam espalhados nas ruas, em terrenos baldios ou são jogados nos rios. A realidade foi confirmada pela professora Mariana Siqueira, do CEF 34 de Ceilândia, que vivencia diariamente situação semelhante a essa. Ela contou que os espaços vazios ao redor da escola estão sendo tomados por lixo. Mesmo depois da coleta semanal, o espaço é tomado por resíduos jogados pelos moradores da região. “A questão dos resíduos sólidos é uma questão de saúde pública”, disse.


O acúmulo de resíduos também é realidade em outros países. É o caso de Gana, país da África ocidental, que recebe milhares de toneladas de aparelhos eletrônicos vindos dos Estados Unidos e da Europa. O mestrando da UnB e ganês, Stephen Delaedem, falou sobre o garimpo de entulho na região e a falta de uma política pública para regulação do lixo que é depositado. O que traz consequências para a saúde da população do local, que “caça” materiais como ouro, cobre e prata sem nenhuma proteção, em troca de dinheiro para a sobrevivência. E próximo ao maior lixão de eletrônicos do mundo, está localizado o maior mercado de alimentos da região.


Do lixão ao aterro

Brasília tem a maior renda per capita e a maior desigualdade social do país. A cidade abrigava o lixão da Estrutural, o segundo maior do mundo e o maior da América Latina, desativado no início de janeiro deste ano. De acordo com a diretora técnica do Serviço de Limpeza Urbana (SLU) Maria de Fátima Abreu, a capital federal tem o lixo mais rico do mundo. “O lixo é a impressão digital de uma sociedade. Em Brasília, temos muitos ricos que desperdiçam uma grande quantidade de alimentos e pessoas muito pobres que sobrevivem desses restos alimentares”, disse. 


Fátima falou sobre o processo de desativação do lixão da Estrutural e transformação em aterro sanitário e as ações de cadastro, documentação e exames para garantia de condições de trabalho mais salubres para os mais de mil catadores que viviam no local. Ao todo, foram mais de 300 reuniões para o fechamento do lixão, com 17 órgãos envolvidos. Ela ressaltou a necessidade de separar o lixo em casa. “Está nas nossas mãos tomar atitudes e melhorar as condições de vida hoje para as gerações futuras. Depende de cada cidadão não deixar que esta conquista se perca”. 


A responsabilidade compartilhada, presente também na Política Nacional de Resíduos Sólidos, foi destacada pela professora do Instituto Federal de Ceilândia Louriene Raposo. “Todos nós somos responsáveis pelo lixo. Precisamos reduzir a produção de lixo, separar e dar o destino adequado”, disse. 


Fórum Ciência e Sociedade

O Fórum Ciência e Sociedade é uma iniciativa da Fiocruz Brasília com foco na divulgação da ciência e tecnologia e popularização da ciência. Teve início em 2002 e este ano integra uma das etapas da pesquisa “Inovação e educação em comunicação para prevenção da Zika e doenças correlatas dos territórios”, desenvolvida pelo Programa de Educação Cultura e Saúde em conjunto com outras unidades da Fiocruz. Estudantes e comunidades de Maricá, Manguinhos e Parati também recebem o projeto este ano.


A coordenadora do projeto e diretora da Escola Fiocruz de Governo, Luciana Sepúlveda, destacou a importância da ciência para a educação. “A ciência é uma forma particular e importante de olhar para o mundo para resolver problemas e que deve fazer parte da cultura de todos, não é algo distante ou que se passa apenas em uma disciplina na escola. Só faz sentido se tiver relevância para a sociedade. Faz parte de uma forma de olhar o mundo, de ser questionar e ter curiosidade e responder questões”, afirmou. Para a pesquisadora, o conhecimento cientifico só faz sentido se for compartilhado e compreendido por todos. “O Fórum faz a ponte com outros tipos de conhecimento e é o tipo de educação que quebra a rigidez das salas de aula, vai para o território e trabalha diretamente com outros atores”, completa. 


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