Especialistas destacam necessidade de criar rotina menos rígida com as crianças durante a quarentena

Por: Fiocruz Brasília
16/04/2020

Nathállia Gameiro

 

Pais e mães que participaram do evento contaram como tem sido o dia a dia com os filhos pequenos. Psicóloga afirma que pais devem se cobrar menos e diminuir as expectativas 

Manter os cuidados com os filhos, com a casa e o trabalho “home office” durante a quarentena tem sido um grande desafio para mães, pais e cuidadores de crianças. A mudança de rotina que a pandemia trouxe para as famílias fez com que eles assumissem novos papéis e acumulassem funções em um único espaço: a casa. Algumas dessas experiências foram contadas durante a quarta edição do Conexão Fiocruz Brasília, realizado nesta quinta-feira (16), com o tema O novo coronavírus nas ruas e as crianças em casa. O que fazer?

Na primeira semana de isolamento social, com as escolas, parques e praças fechadas, o pensamento de Marina Ramalho e de Marlon Camacho foi semelhante: reunir o máximo de atividades educativas e brincadeiras possíveis para as crianças e restringir o acesso a celulares e computadores. Marina é jornalista e mãe de três filhos, uma menina de cinco anos e gêmeos de três anos. Marlon é engenheiro de computação e educador parental, pai de dois meninos, de sete e um ano. O entretenimento não durou muito tempo, e logo veio a cobrança e a frustração dos pais.

A psicóloga clínica de adultos e adolescentes e mãe de três crianças Raissa Volker ressaltou que os pais precisam abrir mão da pressa e das expectativas, e tirar o peso e a cobrança que fazem a si mesmos. “É tempo de curtir o filho, fazer o que tem vontade e pensar o que pode fazer junto com a criança durante esse tempo em casa. Tomar café, trabalhar um pouco, fazer intervalos mais frequentes para estarem juntos e decidir que eles são a prioridade, porque precisam de segurança física e emocional”, exemplificou.

Para a pedagoga e diretora de Educação Infantil da Secretaria de Educação do DF, Andréia Martinez, é necessário estabelecer rotinas que não sejam rígidas, além de inserir as crianças nas atividades da casa, para que se sintam protagonistas e mantenham os vínculos afetivos e familiares. “É importante oportunizar momentos de conversas, contação de histórias e uma maior convivência familiar”, afirma.

É o que os filhos da jornalista Talita Cruz têm feito, participando de algumas tarefas de casa como cozinhar um bolo e criando responsabilidades, ao jogar a própria fralda no lixo ou limpar os desenhos rabiscados na parede. Para conciliar o trabalho com o cuidado dos quatro filhos, de sete, quatro e dois anos e o bebê de sete meses, ela definiu horários com o marido. Enquanto um trabalha, o outro cuida das crianças e a rotina é ajustada a cada semana.

“Entendi que não tenho o controle de tudo, eventualmente algo não vai sair como planejamos. Se hoje foi difícil, amanhã pode melhorar e farei o melhor que puder, mas sem a expectativa de que tenho que dar conta de tudo. Nossos filhos têm que nos ver como humanos, que sentem angústia, medo e raiva. É um momento de abrir um diálogo a partir das situações que surgem e formar as crianças”, afirmou.  Para Talita, o ganho é a convivência familiar, e a oportunidade para que a família se fortaleça e crie soluções para as situações que aparecerem.

A realização de atividades diferenciadas é essencial , segundo as especialistas, para que as crianças se desenvolvam em outros aspectos e desenvolvam a educação integral. Elas sugerem que os pais reformulem espaços em casa, próximos ao local reservado para o trabalho, para que as crianças se tornem mais autônomas, usem a criatividade, contem histórias, brinquem e criem utilizando o básico: tesoura, papel, caneta, tampas de garrafa e os acessórios que estivem acessíveis em casa.  

Criatividade não falta para a divulgadora científica Catarina Chagas, mãe de duas meninas de oito e cinco anos. Durante esse período, ela tem feito experimentos científicos e outras atividades como o uso da purpurina para explicar o que é novo coronavírus para as filhas. Catarina destaca que é importante conversar com as crianças sobre o tema de forma clara e verdadeira. “Elas não estão alheias a isso, elas escutam na TV, veem nossa reação. Saber a informação pela metade pode gerar ansiedade”, explica. Ela lembra que é preciso falar em uma linguagem que os filhos entendam e deixar que sejam protagonistas ao falarem o que entendem sobre isso, como se sentem e quais dúvidas têm sobre o assunto. Para as crianças mais velhas, ela destaca que é importante explicar como buscar informação confiável para que saibam diferenciar as fake news encontradas na internet.

Figura paterna e papel das escolas

O educador parental Marlon Camacho contou que estava com saudade de estar com os filhos e de realizar pequenas tarefas do dia a dia, como cozinhar para a família. Além disso, reaprendeu a diferenciar o que é importante do que é urgente, e com isso, priorizou os filhos. “Eu tinha a sensação de perder tempo quando cuidava dos filhos. O trabalho mais importante dos pais e cuidadores é com as crianças. Todo o resto se ajusta para acolhê-las”, afirmou.

Para ele, o isolamento social é uma oportunidade principalmente para os homens perceberem a carga dos cuidados com a casa e as crianças, tarefas que geralmente são feitas pelas mães e, assim, dividirem as atividades. “Nós homens também conseguimos cuidar. Cuidar dos meus filhos é a ação mais importante da minha vida. Temos que aproveitar o tempo para treinar atividades do cotidiano que exerçam habilidades de desenvolvimento e aprendizagem deles”, disse. Marlon acredita que, neste momento, ao invés de colocar mais um peso sobre os pais de se tornarem professores em casa, a escola deve preservar a relação das crianças com os colegas e professores.

Os desafios que a educação remota trouxe para a comunidade escolar foram lembrados pela pedagoga Andréia Martinez. Os profissionais da educação se viram diante de uma nova realidade, em que tiveram que realizar funções que não esperavam, como manusear uma câmera para gravar aulas em um novo formato e ainda lidar com a pressão das escolas. Ela afirmou ainda que o cenário acentua as desigualdades sociais, já que nem todos os estudantes têm acesso a essas ferramentas.

Para Martinez, o momento é de preparação para o retorno das aulas com o cuidado com o estado emocional dos alunos, estreitamento do vínculo das escolas com as famílias e de reinvenção da educação no país, para uma escola dialógica, abandonando o modelo de transmissão de conteúdo que não é atrativa para os estudantes e trazendo aspectos mais humanos e que possam contribuir para a relação com a sociedade.

As perguntas de pais e cuidadores foram respondidas ao vivo. Confira o vídeo completo do 4º Conexão Fiocruz Brasília, disponível aqui.