Enfrentamento da Covid-19 na Cidade Estrutural foi tema de Seminário

Por: Fiocruz Brasília
07/10/2020

Fernanda Marques

 

A Cidade Estrutural (DF) foi o foco das apresentações e debates na terceira edição do Seminário “Experiências de Integração entre Vigilância em Saúde e Atenção Primaria à Saúde no Enfrentamento da Covid-19”, evento virtual realizado nesta terça-feira (6/10). A série de seminários é organizada pela Plataforma de Inteligência Cooperativa com Atenção Primária à Saúde (PICAPS) e transmitida ao vivo no canal da Fiocruz Brasília no YouTube. A abertura do evento foi marcada pela exibição de um vídeo sobre as ações das agentes territoriais do Comitê Estrutural Saudável & Sustentável.

 

Experiências

Os residentes da Fiocruz Brasília André Corrêa e Laryssa Costa, que atuam na Atenção Primária à Saúde (APS) na Estrutural, apresentaram estudos sobre o trabalho  desenvolvido na região, que apresenta o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Distrito Federal (DF) e enfrenta uma difícil situação ambiental e socioeconômica, agravada, ainda mais, no contexto da pandemia. Atualmente, cerca de 45 mil pessoas vivem na Estrutural, a maioria jovens, com média de idade em torno de 26 anos, baixa renda e baixa escolaridade. “Dos jovens entre 18 e 29 anos, 36,1% não trabalham nem estudam”, afirmou André. “Morando, muitas vezes, em barracos em ruas de terra, longe da Unidade Básica de Saúde (UBS) e com transporte público precário, é grande a dificuldade de acesso das pessoas aos serviços de saúde”, acrescentou.

 

Nesse contexto, André apresentou uma avaliação de desempenho das equipes de Saúde da Família durante a pandemia. A partir de documentos de referência, ele e outros residentes buscaram construir indicadores e compará-los com os dados das equipes que atuam na Estrutural. Dessa forma, conseguiram identificar alguns problemas e refletir sobre suas possíveis causas. Identificaram, por exemplo, uma falta de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e também uma distribuição desigual de técnicos de enfermagem e ACS entre as equipes. Uma parcela significativa da população não está coberta pelos serviços e existe uma alta taxa de absenteísmo nas UBS.

 

A residente Laryssa explicou como é feito o acolhimento dos usuários nas UBS, separando o fluxo de casos suspeitos de Covid-19 dos demais, e apresentou também um painel da Covid-19 na Estrutural, a partir do qual é possível extrair várias informações sobre casos e óbitos pelo novo coronavírus. “Os dados podem ser divididos por semana epidemiológica, desde o primeiro caso registrado, por equipe, por faixa etária etc.”, comentou. A maioria dos casos, segundo Laryssa, está na faixa etária de 20 a 29 anos, e a maior letalidade ocorre entre idosos.

 

Debates

Ao comentar os trabalhos apresentados, o professor Walter Ramalho, da Universidade de Brasília, lembrou que “os desafios da Covid-19 são locais, onde a vida acontece” e apontou alguns problemas no processo de enfrentamento da pandemia, como uma falha em comunicar à população sobre os riscos e as medidas de proteção. Mas, sobretudo, o professor falou sobre a falta de investimentos para que a APS atuasse fortemente desde o início da pandemia. Sobre o painel da Covid-19, destacou a importância da permanente atualização dos dados. “Esses dados são fundamentais para que possamos tomar decisões, ir a campo, falar com as pessoas, provocar ações de saúde na comunidade. Isso é a APS trabalhando em conjunto com a vigilância”, disse. “Não podemos ter uma vigilância burocratizada, que chega aos gabinetes, roda estatísticas e só volta ao território após um grande lapso de tempo”, avaliou. Para Walter, os ensinamentos da Covid-19 sobre a importância da atenção e da vigilância muito próximas no território precisam ser colocados em prática no enfrentamento de outro agravo que já está circulando, as arboviroses.   

 

Segundo Jorge Machado, coordenador do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (PSAT) da Fiocruz Brasília, os estudos apresentados mostram o tamanho da necessidade de saúde, onde a estrutura da APS está subdimensionada. Além da importância das ações solidárias da comunidade com as populações mais vulnerabilizadas, enfatizou também a urgência de uma linha de cuidado mais ativa com os idosos da região, por meio de um melhor mapeamento e acompanhamento desses idosos, busca ativa, visitas domiciliares e contato permanente.  

 

De acordo com Cláudio Maierovitch, coordenador do Núcleo de Epidemiologia e Vigilância em Saúde (NEVS) da Fiocruz Brasília, houve pouco tempo para se preparar uma resposta à pandemia e, mesmo assim, parte desse tempo foi desperdiçada negando-se o problema, o que fragilizou a organização inicial. “Ainda estamos vivendo o problema, não passou. Então, devemos não só avaliar os erros cometidos, mas, sobretudo, fazer o que ainda pode e deve ser feito no futuro imediato”, pontuou. “Qualquer projeto de acompanhamento mais próximo do que acontece na comunidade está comprometido pelo número baixíssimo de ACS, e o rendimento das equipes também é baixo. O que está acontecendo? Somos obrigados a perguntar. Mas para responder de imediato e investir onde é necessário”, completou. Cláudio criticou, ainda, o que chamou de “vigilância contemplativa”, limitada a contabilizar os casos: “é preciso rastrear as cadeias de transmissão do vírus, esclarecer a população, fazer o isolamento”.

 

Cândace Costa, aluna do Curso de Especialização em Governança Territorial para o Desenvolvimento Saudável e Sustentável e uma das agentes territoriais do Comitê Estrutural Saudável & Sustentável, chamou atenção para a necessidade de que o profissional de saúde vá até a casa das pessoas. “O profissional não pode ficar só dentro da UBS. Houve tempo para a contratação de mais profissionais para o mapeamento das famílias, e isso não foi feito. Muitas não foram assistidas, mesmo depois de um resultado positivo para Covid-19. Se não cuidar, a pandemia ainda vai matar muita gente”, afirmou. “Não se pode agir como se a Covid-19 já tivesse ido embora do DF, várias pessoas na comunidade ainda estão com a doença. Isso é muito sério”, alertou a agente territorial.

 

Uma das potências da integração entre vigilância e atenção é a oportunidade colocar os dados no mapa e permitir que esse mapa seja analisado por diferentes olhares – de gestores, acadêmicos e moradores. Uma das riquezas da Estratégia Saúde da Família é que ela consegue enxergar as vulnerabilidades do território, e os dados que a UBS traz são criticados e legitimados pela própria população. Foi o que destacou Fernando Erick Moreira, coordenador da APS da Secretaria de Estado da Saúde do Distrito Federal (SES/DF), reforçando que análises como essas feitas sobre a Cidade Estrutural devem ser repetidas também nas outras regiões do DF, de modo a subsidiar a expansão e a qualificação da Estratégia Saúde da Família.

 

Encaminhamentos

Ao final do Seminário, todos os participantes foram provocados pelo mediador, o coordenador de Gestão e Integração Estratégica da Fiocruz Brasília, Wagner Martins, a resumirem suas propostas de ação prioritárias, a partir das discussões durante o evento. André disse que é preciso entender melhor os motivos dos problemas identificados nas UBS e agir para reduzi-los. Laryssa comentou a importância de os profissionais de saúde saírem das UBS e conhecerem melhor o território. Walter lembrou a necessidade de ultrapassar a dimensão burocrática dos dados para uma ação efetiva voltada a territórios mais saudáveis e sustentáveis. Jorge reforçou o foco nos idosos, enquanto Cláudio valorizou a presença da comunidade dos debates. Cândace recomendou a ampliação das equipes de Saúde da Família e dos atendimentos domiciliares. “Os moradores estão cientes dos problemas, eles querem solução”, sublinhou. Fernando afirmou que é necessário manter esse espaço compartilhado de discussão, conectar melhor a gestão central à local e fortalecer, cada vez mais, a conexão com a comunidade.

 

Para assistir o Seminário na íntegra, clique aqui.

 

Próximas edições do Seminário

A série de seminários virtuais “Experiências de integração entre vigilância em saúde e atenção primária à saúde no enfrentamento da Covid-19” teve início no dia 8 de setembro. Os eventos são realizados quinzenalmente, sempre às terças-feiras, das 19h às 21h, no YouTube da Fiocruz Brasília. A cada edição, são apresentados diferentes relatos de boas práticas nos territórios do Distrito Federal. Essa iniciativa é fruto de uma articulação entre a Fiocruz Brasília, a UnB e a SES-DF, com o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS). Os interessados em apresentar suas experiências podem se inscrever por meio do formulário disponível em https://forms.gle/tkKdZoJQt1Y1yRGZ7.

 

A ação é voltada, prioritariamente, aos trabalhadores da SES-DF. A seleção das experiências será realizada por comitê científico formado pelas instituições organizadoras.