Em defesa da ciência com diversidade

Fernanda Marques 12 de março de 2024


Ela escolheu uma profissão não só da qual gostava, mas que podia exercer com arte – a arte que inquieta, que incomoda, que desperta a curiosidade. Referia-se à arte de fazer ciência, que coloca tudo em movimento. “Você vai construindo o conhecimento porque não o encontra pronto”, explicou a diretora da Fiocruz Brasília, Fabiana Damásio, que, na tarde do último sábado (9/3), participou do bate-papo Lugar de menina é na ciência, promovido pelo SESI Lab. Baiana, psicóloga, mãe, pesquisadora e gestora, Fabiana compartilhou com o público um pouco da sua trajetória pessoal e profissional, inspirando e incentivando as meninas e mulheres presentes a não desistirem de seus sonhos e acreditarem na sua potência, seja como cientistas ou em outras profissões que desejarem. 

 

Como podemos nos relacionar melhor em meio às nossas diferenças? Desde muito cedo, Fabiana se fazia esta pergunta, inquietando-se com as desigualdades sociais e as adversidades que ameaçavam a existência de tantas pessoas. Foi na busca por respostas que descobriu, na prática, que ciência não se faz apenas nos laboratórios, mas também com as pessoas e com as questões sociais. Começou pesquisando a violência percebida por professoras de escolas de Salvador e o impacto desse fenômeno na saúde mental. Continuou estudando saúde do trabalhador e, atualmente, sua atuação é voltada às populações em situação de rua. “Realizo pesquisa participante, uma pesquisa com pessoas, e não sobre elas. Elas são ativas na produção do conhecimento”, contou a diretora.

 

Hoje na Fiocruz Brasília, além de pesquisadora, Fabiana é também gestora. Esteve à frente da Escola de Governo e, em 2017, assumiu a direção da unidade. Só que a história de Fabiana na capital federal começou antes. Ela saiu de Salvador para fazer o doutorado na Universidade de Brasília (UnB). “Minha filha Marina, então com três anos, escreveu a tese comigo”, contou, lembrando os desafios de ser recém-chegada e sem rede de apoio. As vivências da mulher-cientista-mãe se refletem nas ações da gestora, que destacou, por exemplo, a inauguração, em 2019, da sala de amamentação na Fiocruz Brasília. “A gestão tem que se colocar em defesa da ciência com diversidade em todos os momentos”, afirmou Fabiana, ressaltando ainda que a gestão precisa estar comprometida com políticas institucionais e políticas públicas de promoção da equidade.

 

“Não adianta mostrar trajetórias lindas se não mostrar caminhos de oportunidades para que outras meninas e mulheres possam também trilhar suas próprias trajetórias de sucesso”, concordou a jovem Karen Reis, estudante de biotecnologia da UnB, que participou do bate-papo com Fabiana. Karen é fundadora e cientista responsável do projeto Neoleite no Steam Power for Girls, e realiza formação educacional para jovens na Wogel Enterprise Aerospace. Ela é também astronauta análoga, o que significa que realizou treinamentos, inclusive em uma réplica da Estação Espacial Internacional, só que ainda não teve a chance de viajar ao espaço. Karen ganhou uma competição de inovação empreendedora da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, o que foi um marco importante, mas não foi um fato isolado. Antes dessa vitória, ela já havia participado de outras competições similares, mas não havia sido selecionada. Na primeira vez em que participou, incentivada por uma professora, a jovem nem imaginava o que a esperava. Mesmo sem ganhar, a experiência foi tão enriquecedora – ela integrava a única equipe só de meninas em um pavilhão lotado de meninos – que ela decidiu não desistir. Continuou participando dos desafios, além de divulgar as oportunidades para outras meninas e incentivá-las a participar também.  

 

O bate-papo foi mediado por Gabriela Resnik, pesquisadora, educadora e comunicadora da ciência, que integra a equipe de ações educativas e pesquisa do SESI Lab. Depois da conversa, houve mostra de projetos no Distrito Federal que têm contribuído para a promoção da equidade de gênero na ciência, entre eles o programa Mais Meninas na Fiocruz Brasília, que está com oportunidades abertas. Saiba mais 

 

Confira aqui as fotos da atividade no SESI Lab 

 

 

Fotos: João Pontes/Sesi Lab 

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