O impacto da Covid para as populações vulneráveis

Nathállia Gameiro 24 de junho de 2022


“O impacto da Covid-19 é maior para uma grande parte da população brasileira, os que vivem em situação de vulnerabilidade social, econômica e sanitária. A comunicação e a educação em saúde foram centrais no enfrentamento do novo coronavírus junto às comunidades”. Essa é a análise feita no trabalho Comunicação e Covid-19: interlocuções criativas de populações vulneráveis no Distrito Federal, da pesquisadora em Saúde Pública e atual coordenadora do Jacarandá – Núcleo de Educação e Humanidades em Saúde da Escola de Governo Fiocruz – Brasília, Aline Guio Cavaca; em parceria com Isabella Moura de Oliveira, Webert da Cruz Elias, Andressa Bruna Rodrigues Santos e Ruan Ítalo de Araújo, alunos de Iniciação Científica da Fiocruz Brasília.

 

Com o fomento do Edital 07/2022 de Apoio à Participação em Eventos da FAP-DF, Aline apresentou o estudo na Conferencia Latinoamericana y Caribeña de Ciencias Sociales: Tramas de las desigualdades en América Latina y el Caribe -Saberes, luchas y transformaciones, realizada no início de junho na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), localizada na Cidade do México. O evento, que já está em sua nona edição, é o maior de ciências sociais do mundo.

 

Para os autores, um dos maiores desafios comunicacionais foi o acesso ao conhecimento e o comprometimento da população às práticas de cuidado e prevenção da doença contextualizadas às necessidades e demandas próprias. Como as informações chegaram a públicos específicos, como as populações vulnerabilizadas? Quais foram as estratégias educacionais utilizadas? Essas perguntas são respondidas no trabalho, que teve como objetivo mapear experiências de tecnologias informacionais e comunicacionais sobre populações vulnerabilizadas no Distrito Federal no contexto do enfrentamento da pandemia.

 

No DF foram mapeadas 14 iniciativas de atividades comunitárias e periféricas relacionadas à Covid-19, que levaram em conta as realidades locais em que estavam inseridas, respeitando as características e representatividades de suas comunidades. São elas: Território Cultural Mercado Sul, de Taguatinga (DF); Coletivo Nós por Nós, Cidade Ocidental (GO); Casa Akotirene; RUAS  e Diário de Ceilândia, ambas localizadas em Ceilândia (DF); Distrito Drag; Portal CanárioNo Setor; Guardiões da Saúde e Instituto Barba na Rua, localizadas em Brasília (DF). Para a pesquisa, as lideranças foram contatadas e entrevistadas.

 

“Foram utilizadas tecnologias digitais, como as redes sociais, e a comunicação boca a boca, uma comunicação orgânica e contextualizada com as realidades locais. Muitos nas comunidades não tinham acesso a redes sociais, então apareceram também muitos cards e lambes. Mapeamos também o aproveitamento de equipamentos territoriais como instrumentos de comunicação: hortas comunitárias e banheiros públicos voltados para a população em situação de rua”, explica a pesquisadora.

 

Colagens, notícias, gráficos e jornais em torno das reivindicações da comunidade, rádio e TV comunitária, articulação em rede, atividades online, oficinas, lives, projetos, acompanhamentos presenciais, fanzines, blogs, podcasts e cards informativos foram outras estratégias utilizadas pelos coletivos mapeados.  

 

Para os autores do estudo, a cartografia de iniciativas como essas pode auxiliar as instituições de saúde na formulação de políticas mais reconhecidas e apropriadas pela população. Eles concluem que é imprescindível a criação de processos de escuta, diálogo e produção em conjunto de informações em saúde que sejam reconhecidas como legítimas pelo público a que se destinam.

 

A pesquisa integra o projeto “Pandemia e contextos criativos: cartografia de tecnologias e arranjos de informação e comunicação de populações negligenciadas para enfrentamento da Covid19”, coordenado pelo Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde do ICICT (Laces) e financiado pelo edital Encomendas Estratégicas – Inova Covid-19 – Geração de Conhecimento, da Fundação Oswaldo Cruz. O projeto é realizado em cinco núcleos regionais, são eles: Universidade Federal do Espírito Santo (UFES); Universidade Federal da Paraíba (UFPB); Fiocruz Pernambuco; ICICT-Fiocruz e Fiocruz Brasília.

 

Durante a conferência no México, Aline participou ainda, junto com um grupo de pesquisadores dos diversos campi da Fiocruz, de mesas e painéis do Eixo Derecho a la salud: tensiones y desafíos entre lo público, lo colectivo y el mercado.

 

 

LEIA TAMBÉM