Seminário debate contribuições do Projeto Nós na Rede para o cuidado em liberdade na RAPS e no sistema prisional

Fiocruz Brasília 28 de maio de 2026


Vanessa Bernardes (Nusmad/Fiocruz Brasília)

 

O Projeto Nós na Rede reuniu, no dia 22 de maio, trabalhadoras, educadoras e cursistas da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e da Atenção Primária Prisional para discutir os impactos da formação na qualificação do cuidado em liberdade e na atuação junto a pessoas privadas de liberdade ou em conflito com a lei. O seminário foi realizado na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, no Rio de Janeiro, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

 

Promovido pela equipe RJ4, o encontro abordou temas como desinstitucionalização, articulação entre saúde mental e sistema de justiça, redução de danos e educação permanente, reunindo experiências construídas nos territórios e nos serviços de saúde.

 

Coordenado pelo Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad) da Fiocruz Brasília, em parceria com o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), o Projeto Nós na Rede tem atuado na formação de trabalhadoras da RAPS e da Atenção Primária Prisional, fortalecendo práticas de cuidado intersetoriais, antimanicomiais e comprometidas com os direitos humanos.

 

Durante a abertura, a coordenadora do projeto, Francini Guizardi, ressaltou que a aprovação da resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que instituiu a Política Antimanicomial do Poder Judiciário, foi um marco para inserir a pauta da saúde mental da população privada de liberdade no centro do debate. Segundo ela, isso impulsionou a criação do Projeto Nós na Rede e consolidou o tema como um dos eixos estruturantes da formação oferecida pelo curso.

 

“Foi a partir dessa resolução do CNJ que conseguimos colocar essa pauta na agenda e propor o Projeto Nós na Rede. Por isso, essa temática é muito cara para o curso, pois se tornou um dos temas transversais que estruturaram o curso”, ressaltou.

 

Ao longo da manhã, as discussões também evidenciaram os desafios de articulação entre os serviços de saúde mental e o sistema de justiça. A educadora Daniela Oliveira, da equipe RJ4, ressaltou que as duas áreas ainda operam sob lógicas distintas, o que impacta diretamente o cuidado ofertado à população atendida.

 

Representando a Assessoria de Saúde Mental da Atenção Primária Prisional da Secretaria Municipal de Saúde do município do Rio de Janeiro, Felipe Abdias destacou que a desinstitucionalização vai além da saída dos espaços de confinamento, envolvendo reconstrução de vínculos sociais, acesso à cidadania, moradia e acompanhamento territorial. “O objetivo do cuidado da desinstitucionalização não é a cura, é a gente poder inserir de novo essas pessoas aqui fora”, afirmou.

 

A fala chamou atenção para a necessidade de garantir acesso à documentação, moradia, rede de apoio, cidadania e acompanhamento territorial, reconhecendo que o encarceramento e o sofrimento psíquico são atravessados por desigualdades sociais, raciais e econômicas.

 

Impacto nos serviços

Durante o evento, também foram debatidos os marcadores sociais da diferença e o cuidado em liberdade a partir das experiências dos cursistas. Os participantes do encontro compartilharam experiências do primeiro ciclo do curso e refletiram sobre os impactos da formação no cotidiano dos serviços.

 

A apoiadora educacional do curso Nós na Rede, Carolina Aires, destacou o potencial transformador da educação permanente desenvolvida pelo Projeto Nós na Rede na construção coletiva do cuidado.

 

“O material do projeto é muito rico. Eu destaco aqui um dos textos que foi um divisor de águas para muita gente, sobre a “Reforma psiquiátrica e a história do presente” que foi muito importante para nós aqui da RJ04”, afirmou.

 

Já a enfermeira Silvânia Oliveira relatou que a formação ampliou sua percepção sobre o cuidado em saúde mental no sistema prisional, fortalecendo a escuta e a construção de vínculos com os usuários.

 

Desafios do dia a dia

O psicólogo Gabriel dos Santos relatou que sua entrada no Projeto Nós na Rede coincidiu com o início de sua atuação em um Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), tornando o curso um espaço fundamental de escuta, supervisão e troca de experiências. Ele destacou os desafios relacionados ao acolhimento noturno em CAPS e à necessidade de ressignificar práticas ainda associadas à lógica do encarceramento.

 

“Quando a gente chega, a gente se depara com uma situação para a qual não está preparado. A faculdade não te prepara para lidar com uma pessoa em vulnerabilidade… Então, a gente precisa muito dessa experiência, dessa formação no dia a dia”, ponderou.

 

Outra participante do curso, Rose Correia, oficineira da unidade Maria do Socorro na Rocinha, no Rio de Janeiro, relatou os impactos da violência e das desigualdades sociais no território, além da importância da construção de vínculos com famílias, comerciantes e lideranças comunitárias para fortalecer o cuidado em saúde mental.

 

Já Kelson, agente social do Consultório na Rua, enfatizou a importância da intersetorialidade, da redução de danos e do trabalho em rede na formulação de práticas de cuidado mais integrais e acolhedoras. Segundo ele, “o curso contribuiu para ampliar o olhar sobre o cuidado, fortalecer a redução de danos e criar espaços de acolhimento também para os próprios trabalhadores da rede”, afirmou.

 

Ao longo do seminário, trabalhadoras, educadoras e cursistas reforçaram a importância da educação permanente como ferramenta de transformação das práticas de cuidado e fortalecimento das políticas públicas de saúde mental voltadas à defesa da vida, da cidadania e dos direitos humanos.

 

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