“Democracia forte é país alimentado”. A frase na ponte que liga as cidades de Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, anunciava a amplitude dos debates da 13ª edição do Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), que aconteceu entre 15 e 18 de outubro de 2025 na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Juazeiro. Justiça climática e convivência com os territórios foram temas dos quais partiram a maioria das discussões travadas no encontro, que reuniu seis mil pessoas no coração do Semiárido brasileiro, às margens do Opará, o conhecido rio São Francisco.
Pesquisadores, estudantes, técnicos, ativistas de movimentos sociais, agricultores, indígenas, quilombolas, extrativistas, pescadores artesanais, cozinheiros e representantes de redes e articulações da sociedade civil reuniram-se durante os quatro dias de congresso. O evento acolheu ainda mais de dois mil trabalhos científicos e abriu espaço para inúmeras trocas de experiências, manifestações artísticas e inovações camponesas.
Radis esteve presente no CBA e aproveitou os dias de diálogo e trocas para entender como os saberes agroecológicos se relacionam com a saúde. Sem a pretensão de esgotar o assunto, e sim abrir a discussão em várias frentes, esta reportagem apresenta alguns dos temas que rolaram em Juazeiro e que reforçam a inequívoca relação entre os dois campos de pesquisa e de trabalho.
Desse encontro de ciências e vivências, marcado pela diversidade de linguagens e por diferentes formas de expressão, os depoimentos a seguir legitimam a certeza de que, para garantir saúde, é preciso não somente defender modos de produção de alimentos que respeitem o ambiente, mas também proteger a vida das pessoas que tradicionalmente vivem e cuidam dos territórios.
O agro que é saudável
Qual a relação entre agroecologia e saúde? O debate sobre a agroecologia no Brasil começa inicialmente com as discussões sobre a produção de alimentos, situa José Nunes, presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA). Para ele, a interlocução entre os dois campos de saber se construiu naturalmente: “Ao longo do tempo, percebemos que a relação com a saúde é fundamental”, diz à Radis, no primeiro dia do CBA.
Professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), ele lembrou que a alimentação interfere diretamente na saúde das pessoas, algo que se verifica quando se percebe que aquilo que se come é responsável pela ocorrência (ou não) de doenças, como diabetes e hipertensão, assim como pela maior ou menor incidência de diferentes tipos de câncer. “Aquilo que se come (e o modo como se come) se refletem diretamente na pauta do SUS”, pontua.
Para Nunes, o encontro entre saúde e agroecologia é muito rico, já que fortalece uma dupla proteção à vida. Assim como a agroecologia defende a produção e o consumo de alimentos saudáveis — que garantem mais qualidade de vida —, a saúde também contribui para a proteção do planeta, na medida em que se apresenta como alternativa às mudanças climáticas e à destruição da natureza [Leia reportagem sobre cozinhas solidárias na Radis 278].
Neste contexto, o professor enfatiza o papel estratégico desempenhado por cientistas e instituições de pesquisa em saúde — incluindo a Fiocruz — na ampliação desse intercâmbio de saberes, quando promovem estudos que tratam, por exemplo, dos efeitos do uso de agrotóxicos na saúde humana ou incentivam o diálogo entre ciência e povos tradicionais.
A interseção entre os campos da agroecologia e da saúde também pontua a fala do sanitarista Marco Menezes, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), que contextualiza: “Hoje enfrentamos, do ponto de vista da saúde coletiva, tanto localmente como globalmente, crises que se entrelaçam, como a crise climática e a crise hídrica. O encontro da saúde com a agroecologia é fundamental para lidar com essas crises”, diz à Radis.
Marco também considera que a interlocução atualiza o conceito ampliado de saúde e os ideais da Reforma Sanitária Brasileira, na medida em que a agroecologia permite que a saúde se aproxime dos territórios e os perceba como lugares de produção de conhecimento e de resistência. “A agroecologia é o caminho, é a ciência, é a arte, é o movimento que, a partir dos territórios, promove o encontro com a saúde coletiva”, define.
Ele defende que é preciso intensificar essa interlocução, trazendo para os currículos de formação da saúde temas como justiça climática e outros relacionados à agroecologia, e mobilizar a agenda de implementação de políticas públicas importantes como a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCF), que visa garantir o direito à saúde para essas comunidades no âmbito do SUS. Na via reversa, avalia que a expertise da saúde pública, principalmente em participação e controle social, pode contribuir na elaboração e na implementação de políticas e programas agroecológicos nos territórios.
O agro que é interlocução
A carta política Conviver com os territórios: a agroecologia que povoa o Brasil, divulgada em novembro pela organização do 13º CBA, denuncia “modos dominantes de produção do conhecimento científico” e reivindica uma “ciência crítica” que reconheça, celebre e dialogue com as diferentes formas de produção de conhecimento.
O documento recomenda a construção de metodologias de pesquisa baseadas na interculturalidade e enaltece estudos colaborativos que cultivem laços de confiança, respeitem e valorizem os conhecimentos e saberes das comunidades e da diversidade de povos. O texto dialoga diretamente com o que defende o engenheiro agrônomo, educador e ativista Sebastião Pinheiro, um dos pioneiros da agroecologia e da luta contra agrotóxicos no Brasil.
Um dos homenageados do CBA em 2025, Tião, como é chamado por aqueles que o conhecem de perto, é enfático na defesa dos saberes tradicionais como necessários para a retomada de uma agricultura saudável. Em entrevista àRadis, ele recomenda uma volta às raízes. “Quem tem essa raiz hoje? Só quilombolas, indígenas ou pessoas com consciência”, argumenta.
A afirmação de Tião reverbera o que diz o documento produzido no CBA, especialmente no trecho que adverte que os conhecimentos populares sofrem a ameaça de apropriação jurídica e comercial pelas grandes corporações empresariais. “A valorização dos processos ecossistêmicos e da biodiversidade não pode ser, em nome de uma racionalidade instrumental, justificativa para estratégias que fragilizam ainda mais a autonomia daqueles e daquelas que atuam historicamente como seus e suas guardiãs”, diz o texto.
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