Iris Pacheco (Psat/Fiocruz Brasília)
Nesta terça-feira, 25, a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem-Viver, considerada a maior mobilização de mulheres negras da América Latina, reuniu cerca de 300 mil participantes de todo o país e de territórios tradicionais. Mais do que um ato político, o evento representa um marco histórico na luta por direitos, justiça racial, bem viver e enfrentamento às desigualdades que atingem de maneira profunda as mulheres negras brasileiras.
O ponto de partida de centenas de caravanas que integraram a Marcha foi uma enorme mulher negra inflável, de 14 metros, com uma faixa presidencial onde se lê “Mulheres Negras Decidem”. A intervenção é um pedido para que a vaga de ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) deixada pela aposentadoria antecipada do ex-ministro Luís Roberto Barroso seja ocupada por uma mulher negra.
A Fiocruz, representada por diretoras e pesquisadoras das unidades de Brasília, Ceará, Piauí, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp), Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), além da Associação dos Servidores da Fundação Oswaldo Cruz (Asfoc), juntou-se à Marcha e fez coro aos pedidos por justiça social, garantia de direitos, fim do racismo e de todas as formas de violência contra as mulheres e a população negra do país.
Também nesta terça-feira (25/11), a Marcha das Mulheres Negras lançou o Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, firmando o compromisso das mulheres negras com a sociedade. E reivindica o reconhecimento da dívida histórica — material e imaterial — deixada pela escravização e pela colonização no Brasil.
Nesse sentido, o documento ressalta o protagonismo e autonomia das mulheres negras na formulação, gestão, execução e avaliação em algumas proposições, como: reconhecimento público do Estado brasileiro da dívida histórica material e imaterial por ato normativo do Presidente da República; criação do Fundo Nacional de Reparação para compensação dos prejuízos causados pela escravização e colonização, de duração indeterminada; entre outros.
Esse movimento acontece dez anos depois da Carta das Mulheres Negras de 2015, um documento político histórico que também denunciou o avanço do fascismo, da cultura do ódio e da expropriação dos bens públicos e naturais no cenário global.
Saúde, cuidado e acolhimento
Em meio a esse movimento histórico, a Tenda do Cuidado se consolidou como um espaço estratégico de acolhimento, promoção da saúde integral e fortalecimento do autocuidado. O local contou com o apoio do Programa de Saúde, Ambiente e Trabalho (PSAT) da Fiocruz Brasília e ofereceu Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), como auriculoterapia, ventosaterapia, reiki, escalda-pés e massagens relaxantes, além da atuação de residentes multiprofissionais e médicos que garantem avaliações clínicas e encaminhamentos quando necessário.
Para a enfermeira e pesquisadora Francyslane Vitória da Silva, integrante do PSAT/Fiocruz Brasília, a presença da instituição na Tenda do Cuidado reafirma seu compromisso com a defesa da vida e com a equidade racial. “Estar presente na maior mobilização de mulheres negras da América Latina significa reconhecer que essas mulheres, historicamente colocadas às margens, enfrentam maiores barreiras de acesso à saúde e impactos desproporcionais das desigualdades sociais. Contribuir com este espaço é um gesto político e simbólico de reparação. Cuidar das mulheres negras é cuidar da base que sustenta este país.”
O conjunto de ações desenvolvidas na Tenda de Cuidado buscou evitar a sobrecarga dos serviços de urgência e emergência do Distrito Federal, além de assegurar atendimento digno e imediato às mulheres, muitas delas vindas de longas jornadas de viagem. Para isso, foi solicitado à Secretaria de Saúde do DF apoio com medicações básicas e indicação de unidades de referência para intercorrências mais complexas. A parceria, destacam as organizações envolvidas, é fundamental para a efetividade da ação e reafirma o papel do SUS como garantidor da equidade, integralidade e justiça social.
Nesse sentido, a atuação do PSAT reafirma também o compromisso público da Fiocruz com o SUS e com a promoção da saúde em sua dimensão ampliada, fortalecendo vínculos com movimentos sociais e territórios.
Integração de saberes: técnica, ancestralidade e cuidado coletivo
Um dos pilares da Tenda é a integração entre saberes técnicos, científicos e tradicionais, prática que rompe com visões hierarquizadas do conhecimento e valoriza a ancestralidade do cuidado nas comunidades negras.
“A tenda articula PICS, conhecimentos dos residentes – enfermagem, farmácia, nutrição, odontologia, medicina, educação física e serviço social – e saberes ancestrais presentes nas práticas de cuidado das comunidades quilombolas, ribeirinhas, pescadoras e periféricas. É um encontro que compreende saúde como um processo integral, que envolve corpo, território, espiritualidade, história e memória”, explica a Francyslane, que compreende que reconhecer e legitimar esses saberes é também enfrentar o racismo estrutural que historicamente desqualifica práticas tradicionais e populares de cuidado.
Para garantir um atendimento integral e humanizado, uma série de estratégias foram estruturadas pelo PSAT e equipes residentes perpassou pela escuta qualificada com profissionais preparados para ouvir histórias, dores e trajetórias, respeitando as especificidades das mulheres negras; o desenvolvimento das PICS voltadas ao bem-estar físico e emocional; garantir uma equipe multiprofissional que contou com 26 residentes de diversas áreas e três médicos na perspectiva de assegurar o cuidado ampliado e interdisciplinar; além da organização em turnos, possibilitando o atendimento contínuo nos dias 24 e 25 de novembro, bem como, uma estrutura adequada com macas, cadeiras, biombos, mesas e ponto de energia asseguram conforto e privacidade.
No aspecto organizativo, vale ressaltar também a importância da integração do espaço com as lideranças da Marcha, buscando respeitar e fortalecer a autonomia e os modos tradicionais de organização das mulheres negras.
Acesse nos links abaixo as fotos da Marcha.
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